The Killing e suas técnicas batidas

O mais recente hit da AMC utiliza velhos truques de Hollywood – e o resultado dá certo

Enquanto a HBO escala a montanha do pop com Game of Thrones e True Blood, a sua miniconcorrente AMC explora terras mais maduras com Mad Men e, mais recentemente, The Killing, uma adaptação da dinamarquesa Forbrydelsen, já na minha lista de downloads. O interessante é que, ao contrário de Mad Men, a estrutura The Killing é bem clichê, o que de início pode parecer ruim, mas no final rende bons resultados. É uma série acima da média (tem alguns defeitos, mas nada muito grave), que provam que as velhas malandragens hollywoodianas funcionam e provam aos falidos CSIs que é possível sim, reciclá-los. Eis alguns deles.

1. Construa os personagens mais fodidos possíveisÉ o jeito mais fácil de construir personagens “complexos” e “bem construídos”. Eleja seus personagens principais e concentre o maior número de problemas neles. Veja os exemplos:

Os fodidos de The Killing: um jeito fácil de fazer “personagens complexos”

2. Todos têm alguma razão secreta e embaraçosa para mentir à polícia Essa é clássica. A polícia interroga fulano, acha a história dele meio incabível e investiga a fundo, descobrindo que ele realmente está mentindo (mas ainda não sabe o porquê). Num novo interrogatório, o agora suspeito confessa (com lágrimas nos olhos) que mentiu para a polícia sim, não porque era o assassino, mas porque tinha vergonha de dizer que fazia xixi na cama. A polícia investiga a história do xixi na cama, descobre que é verdade e volta à estaca zero. È nesse ponto que surge outra pista e um outro falso suspeito é interrogado… e assim vai.

3. Crie uma teoria da conspiração – e descarte-a depois Mortes de adolescentes sempre começam a ser investigadas pelas amigas e pelos namorados canalhas. Não esqueça de vestir as boas moças de rosa, e os drogados matadores de aula de preto, e voilá, você tem o início de uma investigação. Com o tempo, descobre-se que a garota morta tinha um desconhecido em sua vida, geralmente um homem mais velho, o que leva a investigação ao círculo dos ricos e poderosos. Daí, pra surgir uma teoria da conspiração, é um pulo. Mas, de novo, a história ficaria previsível, e volta-se ao ponto inicial: ou a morte foi um acidente, ou foi passional (com uma solução um pouco mais complicada do que namorados ciumentos  e amigas invejosas). O final de The Killing deu uma saída habilidosa à fórmula acima.

4. Crie uma uniformidade visual de opressão Aqui está uma das sacadas mais brilhantes de The Killing. Talvez por se basear numa série nórdica, ou simplesmente por vontade dos produtores de dar um ar deprimente à história, ela se ambienta na cidade de Seattle, uma das mais chuvosas dos Estados Unidos e é grande o suficiente para ter um cenário político relevante (o que é importante para a trama) e dar um toque urbano necessário. É o suficiente para dar o tom mórbido e quase enervante à série, afinal esta não se trata apenas de quem-matou-quem: é uma história de tristezas. Bem melhor do que a escuridão gratuita dos laboratórios de CSI.

Mais aspectos relevantes de The Killing Além de reciclar velhos truques narrativos, aqui vão mais aspectos que me encantaram:

  • A protagonista Sarah Linden: Colocar uma loirinha gostosa para sair investigando com os peitões pululando por aí é uma tentação bem grande, mas felizmente este não foi o caso. A Mireille Enos é bonita, mas sua beleza não virou argumento de venda, e até que tentaram enfeiá-la com roupas infelizes e um eterno rabo de cavalo (não adiantou muito: ela é bonita e seu cabelo é óóóótimo). Não deu muito certo, mas o que interessa aqui é como a personagem ficou crível: ela é forte, inteligente, tem síndrome de independência, mas também sabe ser delicada, pirar na batatinha, ter aquela TPM básica e dar um sorriso bonachão. O seu companheiro Stephen Holder que o diga.
  • A direção de arte: Como disse, o clima da cidade, a cenografia bem realística, a ausência de romantismo, a trilha sonora, tudo está muito coeso, muito frio e opressor.
  • O castigo “moral” reservado à Mitch Larson: Se você perde uma filha, isso lhe dá o direito de sofrer? Sim. Mas isso também te dá licença para se comportar como uma criança? Nem sempre.

Por isso gostei da briga que os pais da garota morta tiveram quando a mãe Mitch retorna à sua casa depois de passar um tempo fugida para arejar o sofrimento. Quando ela insinua que sofreu mais do que todos por ser a mãe da defunta, seu marido Stan retruca muito bem: “Mas eu sou o pai.” E foi ele quem ficou em casa, para lidar com os filhos, a casa, a empresa, a polícia difícil, os charlatões aproveitadores e uma imprensa interesseira. Assim, ficou muito claro que os roteiristas tiveram os cojones de dizer que Mitch tinha direito à sua parcela de sofrimento sim, mas se comportou de forma egoísta.

E ele ainda cozinha bem…
  • O detetive Holder e sua relação agridoce com Sarah Linden: Ele é engraçado, bacana, sabe figir que é pedófilo e é meio fodido, mas nada que a gente não perdoe depois dele fazer umas duas piadas sobre a Sarah Linden (logo após aguentar os problemas dela).

E, depois de um banho e um perfume, até que eu o pegava.

  • O enredo “multifocal”: The killing acontece em três esferas: o da polícia que investiga o assassinato de Rosie Larsen, o luto da família que a perdeu e o de um círculo político que parece estar envolvido no caso. Isso enriquece o roteiro, mas há um porém: a persistência em acompanhar Darren Richmond e seus cabos eleitorais com tanta intimidade significa que um deles estão intrinsecamente ligados ao assassinato, o que é um baita dum spoilerzão.
  • O final não é 100% feliz: Como disse, os personagens já tinham muitos problemas antes mesmo do assassinato de Rosie Larsen acontecer, e não é porque o bandido foi descoberto que eles vão milagrosamente se resolver. Alguns chamam isso de “final europeu”. Eu chamo de um final honesto.
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Autor: Amanda Alexandre

Uma eterna amante das paixões humanas. Ser adulto dá medo. E é fantástico também.

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