RESENHA: Fahrenheit 451 (e os Top 3 da distopia)

Todo metido sabe que, muito antes desta moda contemporânea de YA distópicos suscitado pelo sucesso de Hunger Games, havia um Panteão do gênero, um Top 3 de obras escritas há décadas atrás mas que ajudam a explicar, hoje, por que nossa sociedade é assim. já que os caras que escreveram os livros eram fodas e conseguiram prever como a gente é hoje

 

Panteão todo-poderoso da distopia

1. Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

2. 1984, de George Orwell

3. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

 

Todos esses livros são respeitados até hoje porque nós nos tornamos exatamente os tecnocentristas solitários que os autores previram.

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Vamos então, ao Fahrenheit:

 

Vive-se em um país em guerra, onde livros são proibidos e as pessoas ficam cada vez mais viciadas em televisão: elas se endividam para comprar novos telões (exatamente como nós), chamam os personagens da TV de sua ‘família’, e suas reuniões sociais existem em função de assistir programa X ou Y juntos. As varandas e cadeiras de balanço, que encorajam a conversa e a socialização por si mesmas, foram pouco a pouco sumindo.

O protagonista é Montag, um bombeiro que queima livros (na história, é para isso que os bombeiros servem). Um dia ele encontra uma menina que gosta de conversar, de passear por aí, curtir as coisas simples da vida. Essa menina conversa com os familiares, sabe fazer amigos. Ele se sente perturbado por ela, sente até inveja dela, afinal, ela tem uma noite agradável ao lado da família, enquanto ele tem uma esposa ruim viciada em TV que ele nem se lembra como conheceu, além de ter sua humanidade nublada pela tecnologia e pelas pequenas questões do cotidiano.

É a partir daí que ele começa a questionar as coisas e os conflitos começam.

 

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Bradbury faz críticas fantásticas ao modo como deixamos o excesso de tecnologia nos governar: como viramos escravos de celular, da música em nossos fones de ouvido, da televisão, como julgamos as pessoas de forma superficial e ridícula (vide o facebook mais próximo de você); como somos inundados de informação, o que nos dá a impressão de que sabemos muito, mas na verdade não sabemos nada; como as pessoas se endividam até a morte para comprarem o que há de mais avançado…

Tudo isso foi previsto em 1953.

Queimar livros é um exagero, mas serviu como modo de expressão. Nossa sociedade não queima livros. Não porque caia de amores por eles, mas simplesmente porque não é preciso chegar a tanto. As pessoas não se interessam mais por leitura. Foi um interesse sufocado da forma mais eficaz possível: em sua fonte. Olhemos para o mercado editorial moderno. Para os infinitos livros comerciais que nada agregam além de um bom vocabulário. Para os autores de ficção literária, sempre ignorados em favorecimento dos autores caça-níqueis. Hoje sabemos que a dominação pior não é a institucionalizada, a escrita em cadernos de leis; pelo contrário, ela é oculta, você não a enxerga, mas se deixa seduzir por ela. A prisão intelectual é atraente, brilhante, vive em cores e se traduz em um reality show dos Kardashians.

Sou fã de séries de TV e essa história de “Livro é bom, Tv é ruim”, parece reducionista. Será que ler “50 tons de cinza” é melhor do que ver “Breaking Bad” simplesmente pelo tipo de veículo envolvido? Será que, inversamente, o livro não padece do mesmo totalitarismo que critica?

Outra coisa me incomodou bastante: Bradbury não vai direto ao ponto. Eu não estava numa fase “poética” para poder apreciar as excelentes figuras de linguagem que o autor utiliza para descrever o seu mundo. É preciso paciência. 

Os jatos que atravessaram o céu de [insira três figuras de linguagem aqui] soavam como [insira três comparações aqui].

Só no parágrafo seguinte a história volta a fluir de novo.

O leitor que procura uma leitura leve e fluida não ficará 100% satisfeito. Mas a história é relevante e sobrevive aos floreios.

Em resumo, Fahrenheit 451 é uma obra poderosa e muito adequada aos tempos atuais. Cuidado para não se sentir culpado ao engatar um maratona de sua série favorita logo depois!

 

P.S.: Não desprezo esta leva de YA distópicos que há por aí. Pelo contrário, acho um sinal de que o gênero está amadurecendo. Toda distopia tem um crítica social e política, por mais leve que seja. Certamente, é uma evolução desde Crepúsculo.

 

 

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Autor: Amanda Alexandre

Uma eterna amante das paixões humanas. Ser adulto dá medo. E é fantástico também.

5 comentários em “RESENHA: Fahrenheit 451 (e os Top 3 da distopia)”

  1. Cara, falta só esse livro para eu completar o panteão. Tentei ler em inglês – justamente porque foi o único que achei na internet – e foi impossível pelo fato de ele florear bastante, como você comentou.
    Recentemente eu li o Cronicas Marcianas – também do Bradbury – e ele é bem direto na narrativa. Me parece que este floreamento dele é um caso específico deste livro.

    De qualquer forma, estou ansioso para ler o fahrenheit. Boa Escolha!

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  2. Amanda, Crônicas Marcianas é, se não me engano, um compilado de pequenas crônicas que o bradbury publicou em revistas. Elas seguem uma ordem cronológica, e no fim, acabam contando uma história como um todo, mas são todas auto- suficientes também. Não foi tão impactante para mim, mas foi uma leitura bem gostosa. Espero que aproveite!

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