Melhores livros de 2013 #4: Game of Thrones, George R. R. Martin

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Li esse livro primeiro no ano passado, em português. Só durei até a metade e fiquei decepcionadíssima. Achei longe de ser tão bom como todo mundo dizia.

No Natal do ano passado, dei uma nova chance, dessa vez em inglês. Achei um pouquinho mais fluido, apesar de achar o estilo do autor ainda pesado. A estrutura da narrativa é dinâmica, mas o estilo do escritor, não. Às vezes, quando está acontecendo coisas superimportantes, fulano está prestes a morrer, altas meninas arrancando os cabelos, PARA TUDO QUE O ESCRITOR QUER FALAR DA ROUPA DO REI. E o Martin demora UM PARÁGRAFO pra descrever a roupa do rei. E de quem está ao lado dele. E de quem está do outro lado dele. 

Um parágrafo depois, podemos retornar à questão de vida ou morte. Enfim, o ritmo não é lá dos melhores. Por isso acho que estes livros exigem uma leitura demorada, não como eu, que li em 5 dias. É para quem quer mergulhar em um universo paralelo, não para os leitores devoradores.

A maioria das pessoas diz que os personagens são bem construídos, porque nenhum personagem é 100% mau ou 100% bom (o que não é verdade). Para mim, não ser 100% mau ou bom não é o suficiente para determinar se o personagem é bem construído ou não. ele precisa ser consistente, também. E não encontrei consistência em alguns personagens. Ned Stark e Robert Baratheon, por exemplo, eram homens experientes, inteligentes mas se comportaram de forma completamente estúpida. Ned confunde honra com burrice e o rei Robert deixou que sua coroa se transformasse em duas orelhinhas de jumento. Isso vindo de dois homens que não só venceram guerras, mas se mostraram bons líderes de paz nos anos seguintes, é muito difícil de engolir.

E a Danaerys. Ah, a Danaerys. Ela simplesmente se apaixona pelo seu estuprador.

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Isso não é flagrante na série, mas no livro eu descobri, com muita decepção que ela é personagem mais mal construída da série toda.

E isso fica muito mais óbvio na festa de casamento dela, onde ela vê um homem estripar o outro, e estuprar um mulher logo depois. O marido Khal Drogo, que A COMPROU, mal lhe olha na cara. Horas depois, ele dá a ela de presente uma égua prateada. E a Dany (eu chamo assim porque gosto dela e sou íntima) cavalga nela de boa, pensando no futuro como rainha. Então é assim:

Eu tenho 13 anos e fui vendida pra um cara que mal olha pra minha cara. Acabei de ver um cara ser estripado e as tripas dele caírem no chão na minha cerimônia de casamento. Mas o meu marido, que finalmente percebeu minha existência, me deu um presente bacana, então tá tudo de boa.

Eu amava a Dany, mas a escrita do Martin estragou minha relação com ela. Ah, e vem o estupro marital.

Na lua-de-mel não creio que seja estupro. Foi um sexo consentido meio sem graça pra Dany, mas tudo bem. Se ela negasse sexo, provavelmente iria ser morta, mas tudo bem. E vamos fingir que usar manhood para pênis não é ridículo. Ou que uma mulher realmente fica lubrificada com as mesmas preliminares que a Dany teve.

Mas logo depois do casamento, Khal Drogo estuprou Dany toda noite. Ela estava se acostumando a andar de cavalo todos os dias, e à noite ficava com a parte interna das coxas doloridas. Aí o marido dela entrava em sua tenda, pra exercer os direitos de marido. Ela protestava (e a palavra do livro em inglês é PROTESTAVA, ou seja, ela não só disse não como se manifestou de uma forma um pouco mais veemente), e o Drogo IGNOROU seus protestos (de novo, a palavra que o livro mostra em inglês é IGNOROU, ou seja, o Drogo viul. que a Dany não queria e mandou bala mesmo assim). Logo, Dany e Drogo configuram um caso clássico de estupro marital.

“He always took her from behind, Dothraki fashion, for which Dany was grateful; that way her lord husband could not see the tears that wet her face, and she could use her pillow to muffle her cries of pain. When he was done, he would close his eyes and begin to snore softly and Dany would lie beside him, her body bruised and sore, hurting too much for sleep. Day followed day, and night followed night, until Dany knew she could not endure a moment longer. She would kill herself rather than go on, she decided one night . . .”

O que não tem nada de errado em si, porque a história se passa numa versão da Idade Média. Maaas, o problema é que esse comportamento é validade depois. Dany se apaixona e seduz o marido.

Ou seja, o único jeito de explicar a narrativa de Dany até então é admitir que ela tem Síndrome de Estocolmo. O que faz muito sentido, porque ela estava em meio a selvagens, dependia do marido para garantir sua posição, e ele foi responsável por seu empowerment. A sobrevivência dela dependia quase exclusivamente do amor que Drogo tinha por ela, logo essa não só é uma explicação ótima como um motivo para acreditar que o Martin é, realmente, um gênio.

[E antes que perguntem, eu sei que a Síndrome de Estocolmo foi diagnosticada no século XX, mas isso não quer dizer que ela não existia antes, ou que o Martin não poderia tê-la utilizado para compor seus personagens.]

Agora você deve estar se perguntando: Se este foi um dos melhores livros de 2013 pra você, então porque tá metendo o pau?

Simples, porque eu gostei mesmo assim. Existem livros de que você gosta apesar dos defeitos e este foi um deles (não posso dizer o mesmo do segundo livro, que já é uma das maiores decepções de 2014). Quando terminei o livro, fiquei cantarolando o tema da série como uma doida, e isso é o mais importante, né?

Como li em inglês, achei a prosa muito bonita. Os diálogos tinham aquele tom dramático e shakespeariano que cai muito bem na vida da corte. Fora dela, os diálogos eram mais vulgares, condizentes com a posição de “plebeus” da escória. Martin teve um cuidado muito grande também ao desenhar vários clãs, e cada um deles vem com uma cultura diferente, se refletindo no modo como os personagens agem.

O excesso de personagens e o extenso descritismo do autor ainda não me incomodaram tanto como nos livros posteriores, mas ainda assim prefiro a série, por focar no que realmente importa.

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Autor: Amanda Alexandre

Uma eterna amante das paixões humanas. Ser adulto dá medo. E é fantástico também.

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