Os 5 livros mais mal-interpretados da história

Este post foi adaptado livremente e na maior cara de pau deste site. Acrescentei alguns comentários e referências. Se você lê em inglês, leia o original. 🙂

 

5. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

Fahrenheit faz parte do panteão do gênero distopia, um classicaço do século XX. Ele conta a história de um bombeiro que, como todo bombeiro de seu universo, queima livros mas, como todo livro do gênero, começa a abrir os olhos para algumas coisas e por isso se mete em encrenca. Para mais detalhes sobre este livro, leia a resenha.

O que todo mundo acha: Que Bradbury critica a censura imposta pelo Estado. Afinal, eles estão queimando livros! Essa é fácil de entender! Até o título do livro é a temperatura em que os livros queimam!

Ray Bradbury - Fahrenheit 451
Só que não.

 

O que é na verdade: O autor estava mais preocupado com a TV roubando o espaço dos livros. Na visão do autor, a TV reduz o conhecimento humano em vários pequenos factoides, contribuindo para a diminuição do nível de atenção do cérebro humano. Junte em uma discussão um viciado em Discovery e History Channel com alguém que lê bastante sobre os assuntos retratados nestes canais. Viu a diferença, né?

Breaking Bad é mara, gente.
Não querendo ser tendenciosa, mas já sendo, até que não é tão ruim deixar de ler 50 tons de cinza para ver Breaking Bad, né?

 

A internet faz o mesmo. Em uma época de piadas de 140 caracteres e vídeos engraçadinhos de 10 segundos do Vine, não é difícil comprovar a hipótese dele. Desta vez, aproxime-se do viciado em smartphone/twitter/facebook mais próximo e dê-lhe algo que precisa de atenção prolongada, como um texto de 3 parágrafos ou mesmo um filme de 90 minutos. Observe os resultados.

Mas há gente que é teimosa. Quando o autor era um professor visitante na Universidade da Califórnia, vários alunos disseram NA CARA DELE que ele tinha uma visão errada sobre o próprio livro e que Fahrenheit era sim, sobre censura!

Toma
Bradbury saiu da sala.

 

 

4. O príncipe, de Maquiavel

Todo mundo sabe que Sarney se tornou o embaixador maranhense do capeta tendo livros “moralmente repreensíveis” como este na mesa de cabeceira.

SARNEY_E_O_DIABO
Para o nosso azar, o capeta ainda não quer tirar férias.

 

O que todo mundo acha que é: Um manual para ditatores, CEOs, escravagistas e líderes malvados em geral.

Foi o primeiro livro a ver a política como uma ciência, completamente despida de moral ou espiritualidade.

Alguns até o desculpam, dizendo que sua máxima “os fins justificam os meios” era aplicável somente ao contexto da época, não na nossa sociedade judaico-cristã-ocidental-republico-democrática-contratualista.

Supostamente, Maquiavel escreveu este “manual” como uma carta de amor aos Medici, uma família linda e maravilhosa que representava para a Florença o mesmo que os Sarneys representam ao Maranhão.

O que é de verdade: Maquiavel estava só trollando. Ele NÃO era guru político de tirano algum. Aliás, ele era republicano, como se pode notar em todos os outros textos que ele escreveu. O príncipe tem todas as características de um sarcasmo superior: tem “ironia fina” (que é só um jeito bonito de dizer que é nojentinho com inteligência), é bem escrito e necessita de um nível mínimo de neurônios para ser entendido.

Ah, e precisa de contexto. Principalmente de contexto. E é por falta dele que entendemos tão mal o rapaz.

E o contexto é:

Maquiavel  trabalhava na Florença enquanto a família Medici (a família que todos acham que ele amava) estava no exílio. Mas os Sarneys italianos Medici voltaram para Florença, destruíram a forma republicana que haviam ali e, como o Maquiavel era diplomata, foi tido como suspeito de traição, preso e torturado pelos mesmos Medici. Ele teve que fugir de Florença e foi neste exílio que ele escreveu O príncipe. enquanto os Medici ainda procuravam por ele, como descoberto por um pesquisador de Harvard.

 

3. On the Road, de Jack Kerouac

Antes dos hipsters, haviam os beatniks. Eles usavam drogas tão ou mais pesadas que os hippies e com exceção de Ginsberg, seus poemas cheiravam pretensiosismo de longe.

E Kerouac foi o culpado pela existência de cada um deles. Surgia a geração beat.

O que todo mundo acha que é: O livro conta a história de um poeta que se enche da vida comum e sai viajando numa epopéia hedonística, enquanto ele tem uma relação de amizade e admiração por Dean, um de seus companheiros de viagem. Juntos, os dois eram a epítome da porralouquice em nome do “encontrar a si mesmo” e resultaram num livro que “definiu uma era”.

Tudo é muito lindo, né? Um tapa na cara poético desta nossa sociedade capitalista, puritana, de mente estreita e que nos impõe obrigações que nada acrescentam na nossa vida a longo prazo. Um livro autobiográfico assim só poderia ser escrito por um liberal, né? Era o que eu pensaria.

O que é de verdade: Kerouac ODIAVA a geração beat. Ele achava-os todos pretensiosos. (Pode-se dizer o mesmo de muitos de seus descendentes modernos, os hipsters.) Aliás, foi exatamente a palavra hipsters que Kerouac usou para criticar a geração beat que tanto o idolatra. Ele explicou que ninguém é beat por que quer. A grosso modo, alguém se tornava beat porque levou uma surra da vida (bater = beat), não porque quer pagar de diferente ou ser um “deliquente juvenil”.

E ele também odiou o tempo que passou na estrada. Ele viajou por 7 anos procurando respostas e disse que não encontrou nenhuma, o que está bem claro no livro. Ele se divertiu bastante com sexo e drogas, mas com o tempo enjoou. Mas apesar disso, todos preferem celebrar o estágio primário e hedonista do personagem.

E mais:

  • Kerouac era católico conservador (Eu sei, eu também fiquei besta.) que se ressentiu de ter causado uma “revolução cultural”.
  • Os eventos do livro aconteceram 10 anos antes dele ser lançado, então Kerouac nem escreveu sobre a época que ele supostamente definiu.

 

2. Assim falou Zaratustra, de Nietzsche

Nietzsche, o ateu dos ateus, é um dos filósofos mais famosos de todos os tempos e foi acusado de “inspirar” muita gente fina, como o serial killer Ted Bunty, Hitler e Mussolini. Foi com Zaratustra que a frase “Deus está morto” se lançou na parada dos sucessos.

Mas o livro, de qualquer forma, é um ótimo tratado contra moralismos tradicionais.

 

O que todo mundo acha: Para resumir o livro do jeito mais idiota e grosseiro possível, digamos que Zaratustra trata de um “superhomem” que, por ser foda, tem o direito moral de conquistar o mundo.

fuhrer
Alguém já viu esse filme antes?

 

Hitler estava prestes a virar estatística como mais um fracassado que largou a faculdade quando leu Zaratrusta, interpretou do jeito que ele quis, distribuiu cópias para os amigos e foi produzir uma adaptação da obra na vida real chamada “holocausto”.

É aí que, para alguns, a tentação de taxar Nietzsche como antissemita fica grande.

O que é de verdade: Se Nietzsche não estivesse ocupado alimentando vermes no seu caixão, ele com certeza daria uma esculhambada básica na interpretação que o Führer deu a sua obra. E ele já teria a esculhambação na ponta da língua, porque já tinha experiência de lidar com antissemitas: a irmã e o cunhado eram “pré-nazistas”. E Nietzsche até faltou ao casamento dos dois para demonstrar que ele não apoiava a posição ideológica deles.

Após a morte dele, a irmã herdou os seus direitos autorais e começou a editar os trabalhos de Nietzsche, inserindo um subtexto do tipo “matem todos os judeus”. Aí o Heidegger, um filósofo que era registrado e militante do nazismo pegou essa versão editada e ajudou a difundir ainda mais visões equivocadas sobre Zaratustra.

Um exemplo da má interpretação: Na obra diz-se que de tempos em tempos é preciso haver “bestas loiras” que dominariam todos ao seu redor com sua força e inteligência. Na visão dos nazistas, essas bestas loiras eram os arianos. Mas na verdade era só uma metáfora com leões, os reis da selva. É uma fábula moral (ou antimoral), mas nunca militar.

 

1. Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll

Para mim, de todos os livros deste post, este foi o mais difícil de entender. Nele, Alice é uma menina curiosa e travessa que entra na toca do coelho e entra num mundo surreal.

O que todo mundo acha que é: O autor do livro era um famigerado viciado em ópio. Alice vive num mundo surreal, come cogumelos, fala com animais e objetos. Logo:

Autor drogado

+

mundo maluco

+

consumo de cogumelos pela protagonista

 

Drugs-Alice-in-Wonderland-06

=

 

ESSE LIVRO É SOBRE DROGAS!!!!1 ESSA MENINA FUMOU MACONHA COMO É QUE PODE MINHA GENTE E AINDA DÃO ISSO PRA CRIANÇA LER ESSE MUNDO TÁ PERDIDO!!!1*

 

*Vírgulas omitidas para efeitos realísticos.

 

O que é de verdade: Quando Orwell não estava usando drogas ou tirando fotos sensuais de meninas de 12 anos, ele era professor de matemática e decano da igreja anglicana. Ele escreveu Alice em 1860, época em que a matemática estava tomando novos rumos e Caroll não estava gostando deles. Então ele escreveu um livro que é uma sátira da matemática moderna e a algumas figuras políticas da era vitoriana.

Ainda quero fazer um post completo com dicas para entender Alice, mas por hora vai jogando no Google:

  • Quartênios
  • Sistemas de base
  • Proporção Euclidiana
  • Transformação de figuras geométricas
  • Sistema judicial corrupto da era Vitoriana
alice-no-pais-das-maravilhas-filme-cinema-SaladaCultural.com-tile
Dá mais medo que isso daí.

 

Você conhece algum desses conteúdos? EU NÃO.

Então, a equação de verdade é essa:

Alice = Sátira política + Sátira matemática

Ou seja, Alice tem fama de fazer apologia às drogas, mas na verdade é um dos livros mais nerds de todos os tempos.

 

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Autor: Amanda Alexandre

Uma eterna amante das paixões humanas. Ser adulto dá medo. E é fantástico também.

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