NÃO É ESSA COCA-COLA TODA: O FATOR HUMANO, de Graham Greene

Como a novela mexicana me ajudou a identificar a breguice de Graham Greene.

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Leia esta resenha em inglês no meu Goodreads.

O fator humano, de Graham Greene.
O fator humano, de Graham Greene.

Eu sempre ouvi falar que Graham Greene era um romancista respeitado, do tipo que faz James Bond parecer historinha para crianças dormirem. Aí eu li um livro dele. E o resultado foi uma decepção enorme, porque…

ESTE ESCRITOR É BREGA. PRA CACETE.

O Graham Greene brasileiro.

Eu comecei a desconfiar quando li isso aqui:

Uma esposa questiona a seu marido se ele não quer ter um filho, já que Sam, a criança que eles criam, é filho somente dela. E o que ele responde?

“Eu amo Sam porque ele não é meu. Porque eu não tenho que ver nada meu quando olho para ele. Eu só vejo alguma coisa de você. Eu não quero continuar para sempre. Pelo contrário, eu quero que tudo o que eu sou termine comigo.”

Como alguém que cumpriu sua carga horária de novela mexicana na SBT e Netflix (portanto, tenho um senso sobrenatural para identificar coisas bregas), eu desconfiei logo. Então, basicamente, aqui a gente sabe que o protagonista tem algum conflito existencial, o que faz parte do “fator humano” do setor de espionagem. [Nada que John le Carré faça melhor.] Minhas desconfianças foram levantadas, e aí eu continuei lendo…

“… ele não queria viver na cidade de Deus ou Marx, mas em uma cidade chamada Paz de Espírito.”

Bingo. Meu instinto de quem viu A Usurpadora no Netflix não me engana!

Paola Bracho aprovou este post.

Quase não há descrição física dos personagens. A não ser, é claro, que os personagens sejam negros.

Não que eu ache Greene racista, pelo contrário. Ele retrata muito bem o “racismo leve” nesta obra. Mas ele ainda é um produto de seu tempo. Ou seja, as descrições físicas dos personagens negros envolvem a cor negra… e não muito mais. A pele é negra, o cabelo é crespo… Só isso. É só isso que Greene usa para descrever fisicamente os personagens negros deles.

A coisa piora com os personagens brancos. A maioria dos outros personagens são um bando de velhos brancos, uns iguais aos outros. Desculpem-me, mas como alguém que nasceu em um país miscigenado, fica chato escolher aleatoriamente pessoas de filmes anglo-saxões para representar os personagens do livro na minha cabeça, simplesmente porque o autor não fez sua obrigação de descrever os personagens além do fato de dizer sua idade e cor.

A ambientação é genérica. Oh, o protagonista está numa livraria. Como é a livraria? Eu não sei.

Oh, eles estão numa capela vendo um casamento. Como é a capela? Quais são as cores das flores que decoram o casamento. Eu também não sei! O autor não nos conta.

Mas não se preocupe. Sabe aqueles filmes anglo-saxões que você usou para escolher os personagens porque o autor não se deu ao trabalho de descrevê-los? Você pode usá-los para escolher os detalhes da ambientação também!

E isso:

“No auge do amor, Sarah gritava o seu nome tribal secreto.”

Maaas… nem tudo é horrível. Algumas coisas são imprevisíveis.

A sabedoria política. Sabe quando você está tendo uma discussão qualquer e aí você faz um argumento todo regrado a Foucault, Chomsky, Bertrand Russell e o caralho a quatro; e aí alguém te responde de um jeito completamente simples, mas com uma sabedoria tamanha que dá um tiro na cabeça do seu argumento pretensiosudo? (Sim, eu inventei essa palavra.) Este livro tem vários momentos assim.

Ele mostra que nem todo racista se vê como racista. Pelo romance, vemos vários personagens que se dizem tolerantes fazerem vários comentários desastrados sobre racismo. Greene faz um ótimo trabalho em expor a “hipocrisia racial” deles. Hipocrisia esta aliás, que pode ser detectada em muitos comentários no seu feed do Facebook.

Este era para ser um dos livros menos sérios e mais “divertidos” deste autor. Eu não me diverti nem um pouco lendo este livro. Não creio que darei uma nova chance a este autor, mesmo com o Obama dizendo que “O Americano Quieto” é um dos seus livros favoritos. Eu nem sequer lerei um de seus romances mais “sérios”. Eu não duvido que ele consiga escrever livros inteligentes. Eu não tive nenhum problema com as ideias dele. Eu tive um problema mesmo foi com o estilo dele.

P.S.: Apesar deste autor não fazer o básico descrevendo os personagens ou ambientação e tem um estilo que deixaria Paulo Coelho roxo de vergonha, ele é MUITO louvado. Vejam o que dizem sobre ele:

“Nenhum outro escritor do século XX penetrou de forma mais profunda e moldou o imaginário coletivo como Graham Greene.” – Time

Hummm. E Kundera, Hemingway, Fitzgerald, Nabokov…? Ele sequer é o melhor do nicho de espionagem. John le Carré sabe escrever livros de espionagem “maduros” muito mais convincentes.

“Um soberbo contador de histórias.” – New York Times

Um soberbo contador de histórias que sequer faz o dever de casa ao descrever ambientes e personagens e que usa alegorias de doer no coração até de quem vê novela mexicana no Netflix.

Moral da história: Não acredite em toda babação de ovo que lê por aí.

Autor: Amanda Alexandre

Uma eterna amante das paixões humanas. Ser adulto dá medo. E é fantástico também.

2 comentários em “NÃO É ESSA COCA-COLA TODA: O FATOR HUMANO, de Graham Greene”

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