Minha decepção com “Zorba, o grego”

Quem lê o blog, sabe que eu tenho cara-de-pau para criticar autores respeitados. Há pouco publiquei uma resenha nojentinha sobre Graham Greene, um dos autores mais respeitados do século XX (e ao meu ver, muito superestimado). Só que eu nunca achei que iria meter o pau em um cara que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

Colhões à vista, vamos lá:

Título: Zorba, o grego Autor: Nikos Kazantzakis
Título: Zorba, o grego
Autor: Nikos Kazantzakis

O protagonista é um homem do mar, um budista zen e sábio que vive enterrado em livros, até foi chamado de “camundongo comer de papiros”, aparentemente a versão meados do século XX da palavra “nerd”. O protagonista não gostou de ser chamado de nerd e resolve empirocar pelo mundo com Zorba, um homem sensual, vívido e ignorante:

“Como a criança, vê todas as coisas pela primeira vez. Espanta-se e interroga sem cessar. Tudo lhe parece milagroso…”

Todos nós já vimos algum filme/novela/série em que um certinho de mal com o mundo aprende lições de vida com um porralouquete qualquer. Mas o livro foi escrito em 1946, então vamos desculpá-lo de qualquer clichê. O meu problema com o livro não é este.

Digamos que um leitor negro vá ler um livro com um personagem que diz coisas racistas o tempo todo. E mais: o tal personagem racista é o portador principal de “lições de vida” da história, uma espécie de mentor indireto pelo qual o protagonista vai refletindo e chegando a conclusões diversas. Ao terminar o livro, se o negro dissesse a outra pessoa que não gostou da leitura porque “o livro é muito racista”, qualquer pessoa entenderia.

Pois bem, o mentor “indireto” de Zorba, o grego é próprio Zorba, que pode não ser racista, mas é um estuprador confesso e, toda vez que pode, faz um comentário que ofende as mulheres.

E acontece que esta criatura que lhes escreve neste blog é uma mulher.

“… que criatura cheia de artimanhas é a mulher! Conseguiu enrolar até o bom Deus!”

“Meu avô” [o tarado do poço, cuja história contarei a seguir] “conhecia bem as mulheres.” [Ele dizia] “desconfia das mulheres. Quando o bom Deus quis criar as mulheres com uma costela de Adão, o diabo se transformou em uma serpente e no momento preciso pulou em cima e surrupiou a costela. O bom Deus se precipita, mas o diabo escorregou, deixando apenas os chifres. […] Quando nos encostamos na mulher, estamos afagando os chifres do demônio! [Misoginia + blasfêmia, tudo ao mesmo tempo. Esse cara é bom.]

“… só aquele que quer ser livre é um ser humano. A mulher não quer ser livre. Então, será que a mulher é um ser humano?”

“Ah, mas isso é porque o livro foi escrito no meio do século XX! O autor só quer mostrar a misoginia que existe no mundo, não quer dizer que ele próprio seja machista!”

Será? Continuemos lendo.

Quando falava de sua experiência de guerra, Zorba contava de como ele e seus colegas russos estupravam mulheres das aldeias que invadiam.

“No começo elas choravam, as malvadas, elas unhavam e unhavam…”

Claro, porque toda mulher que resiste ao estupro é uma malvada.

“…mas, lentamente, iam se deixando tomar, fechavam os olhos, gemiam de satisfação. Mulheres, ora…”

Então, as mulheres que estavam sendo estupradas iam pouco a pouco diminuindo a resistência, e o babaca do Zorba interpretou isso como elas gostando de serem violadas. E pelo “Mulheres, ora…” ele provavelmente concluiu que toda mulher é assim, ou seja, que toda mulher gosta de ser estuprada.

Mas isso ainda não é o suficiente para derrubar nossa teoria de que o livro só mostra misoginia, mas não é misógino em si, certo? Continuemos lendo.

O CASO DO VELHO TARADO

Em um momento da história, Zorba conta a história de seu avô. Essa é uma passagem caracteriza bem o livro como divisor entre “pessoas normais” e “pessoas que são tão sofisticadas a ponto de achar o fodido não-fodido”.

Vou transformar essa passagem em um quiz interativo para você compreender a extrema complexidade psicológica da criatura.

Você é uma moça bonita e está passando por uma rua, quando vê um velho que gosta de se sentar à porta de casa com o único objetivo de secar moçoilas como você. O que você pensa de tal velho?

( ) Tarado

( ) Pervertido

( ) Um tarado que não tem o que fazer da vida

(X) Uma alma linda e complexa que quer absorver para si toda a beleza da vida

Em outro dia, você vai pegar água no poço, e vê o mesmo velho tarado e desocupado, já com defeitos de visão, pedindo para que você se aproxime dele. Contrariando todos os instintos do bom senso, você se aproxima do velho, que do nada acaricia o seu rosto. O que você faz?

( ) Chama-o de velho tarado e manda-o para aquele lugar

( ) Você é uma dama, logo pede licença e sai discretamente do local, mas mentalmente o chama de velho tarado e manda-o para aquele lugar

(X) Pergunta o que está acontecendo, porque se ele está acariciando o seu rosto do nada é porque obviamente ele passa por algum conflito existencial

Respondendo à sua pergunta, você constata que o conflito existencial que aflige o velho tarado é o fato dele estar morrendo e deixando todas as mulheres bonitas para trás, e essas mulheres bonitas vão beijar e transar com outros homens além dele!

Em suma, ele não vai poder traçar todas as mulheres bonitas do mundo. Essa é a grande dor existencial dele.

O que você pensa de tal criatura?

( ) Ele é um tarado

( ) Ele é um tarado egomaníaco

( ) Ele é um tarado egomaníaco que não tem o que fazer

(X) Ele é uma alma linda e complexa que só quer absorver para si toda a beleza que existe no mundo.

Se você não marcou as últimas alternativas, sinto muito lhe dizer: você, assim como eu, é uma pessoa normal com um cérebro indigno de entender obras ultrassofisticadas. Sei que o tema desta passagem é a dor de ser mortal, mas o modo como o escritor escolheu passar isso é demais para o meu pobre coraçãozinho sensível.

Tal misoginia até contamina o protagonista, o nerd budista sábio e muito zen. Eis como ele reage quando nota que, no que tange às mulheres, tem um estilo um pouco mais lento e respeitoso do que seu colega machista-estuprador:

“… [arrombar a casa dela], correr atrás dela, apanhá-la pela cintura e, sem uma palavra, leva-la para o seu leito, eis o que se chama agir como homem!”

Repetindo: Ser homem = Entrar na casa da mulher que gosta e transar com ela sem ligar para o fato de ela estar a fim ou não

E aí, pessoa normal com cérebro deficiente como o meu, será que concordamos?

E a tradução do livro? Tudo ia bem até que, antiga edição do Círculo do Livro, encontrei com um absurdo: Sabe como nos anos 70/80 todos diziam “morou?” para perguntar “entendeu?”. Pois o tradutor colocou a expressão “morou”. Na boca de um grego. No meio do século XX.

 Mas o pior de tudo vem agora, e se você não quiser spoiler, aconselho parar de ler por aqui:

O CASO DA VIÚVA GOSTOSA

Na história, o protagonista se interessa por uma viúva tão linda e gostosa que é a musa da ilha de Creta. Esta viúva despertou a paixão de um rapaz que, decepcionado com o amor não correspondido pela viúva, se suicida afogando-se no oceano. E a vila chega à conclusão que a culpa é da viúva.

Algum problema até aqui? Não, a culpa é dos populares que são tão simplórios a ponto de chegar a uma conclusão tão terrível.

Cria-se então, uma situação parecida com a de Monica Bellucci em Malena: a viúva se esconde da fúria popular, até que vai à igreja em um festejo religioso. Os populares a cercam na porta da igreja e a lincham.

E o que acaba acontecendo? Ela é decapitada. Porque botou um fulaninho na friendzone.

Até aqui tudo normal, né? Injustiças acontecem. Aí o protagonista chega à horrível conclusão de que a decapitação da mulher fora “necessária” e “justa”.

Vai pra puta que pariu.

Apesar de tudo, o livro tem pensamentos interessantes… e um estilo de escrita fantástico.

“Então, para que a liberdade chegue são necessárias tantas mortes e patifarias? Se eu lhe contasse os crimes e enormidades que foram cometidos [em nome da liberdade], você ficaria com o cabelo em pé. E, no entanto, qual foi o resultado de tudo isso? A liberdade! Não entendo mais nada!”

“… Mas isso também não é uma forma de escravatura? Sacrificar-se por uma ideia, pela raça, por Deus? Ou será que, quanto mais alto o patrão, mais longa se torna a corda da escravatura? O escravo pode então agitar-se em uma arena mais espaçosa, e morrerá sem nunca ter encontrado a corda. Será isso que então chamamos de liberdade?”

“Não vá dizer [aos homens] que são todos iguais e todos têm os mesmos direitos. Na mesma hora eles pisarão no seu direito, roubarão o seu pão e o deixarão morrer de fome.”

“…é um pecado mortal violar as leis da natureza. Não devemos apressar-nos, nem impacientar-nos, mas seguir com confiança o ritmo certo.”

“… a vida se esbanja em pequenas alegrias, em pequenas tristezas e em fúteis propósitos.”

Enfim, o Kazantizakis mereceu o Nobel. Pesquisando sobre ele, vi que ele sofreu muita opressão política e cresceu em um ambiente terrível, cercado de guerra. Isso se traduz no pessimismo das frases acima.

Mas vai ser machista assim lá na puta que o pariu.

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Autor: Amanda Alexandre

Uma eterna amante das paixões humanas. Ser adulto dá medo. E é fantástico também.

13 comentários em “Minha decepção com “Zorba, o grego””

  1. Vim parar de pára-quedas no seu blog pesquisando pelo livro Flowers in the attic e fiquei passeando por outras postagens. Agora eu tô extasiada de ter finalmente encontrado alguém que não fica passando a mão na cabeça de livro misógino porque é um clássico super conceituado e do século tal. Muito obrigada ❤

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  2. Em tempo: O narrador, ao qual vc chama protagonista, é um cientista da alma, muito diferentemente de um Nerd que, a meu ver, é um cientista das múltiplas matérias

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    1. Cientista é aquele que emprega o método científico ao entender mistérios. O protagonista não aplica o método ao entender a natureza humana, ele o faz por meio de experiências pessoais, o que é um meio completamente anedótico (e anticientifico) de lidar com questões não resolvidas.

      Por favor, não ofensa a ciência com suas comparações bobas.

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  3. Censora!
    Nada mais. censora!
    Agora tu vai ter que censurar isto também , até por que ninguém vai entender.
    É.
    É uma bola de neve censora.
    Começa com um pequeno clique, e termina sabe se lá aonde.
    Onde está meu texto?
    Agora tu vai ter que censurar este também.
    Vai lá.
    Não tenha medo.
    Seja coerente.
    Censora.

    Curtir

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