O que os gringos pensam de Machado de Assis?

O que os estrangeiros que por acaso leem Machado falam dele na internet.

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Lembra que nós todos sentíamos aquele dever moral e patriótico de ler Machado porque ele era o melhor escritor brasileiro de todos os tempos, autor de clássicos obrigatórios enfiados goela abaixo?

Lembra que nem sempre nós nos empolgávamos com essa “tarefa” que era ler Machado de Assis?

Como os gringos veem Machado de Assis?
Sua coragem para ler Machado durante o Ensino Médio

Agora lembra que, embora nós não gostássemos de nossos próprios clássicos, às vezes líamos clássicos estrangeiros sem sentimento de culpa (e até gostávamos)?

Você lendo Jane Austen na adolescência…

Bem, para alguns gringos é o inverso. Eles foram obrigados a ler Jane Austen, Mark Twain e afins… e estão lendo nosso brasileiríssimo Machado por conta própria. Por isso, com uma preguiça editorial capaz de deixar os articulistas do Buzzfeed de cabelo em pé, eu li as resenhas do Machado no Goodreads e com algumas traduções livres mostrar o que alguns gringos falando dele…

Pois é. Machado é um mestre.

A gente lê um autor e pensa: como é possível que esse gênio seja desconhecido? Sim, só uma espécie tão cretina como a nossa ignoraria o Machado.

Brian, de Los Angeles, sobre Brás Cubas

Eu não sei como resenhar este romance. Lê-lo foi como assistir uma jogada de mestre no xadrez. Jogada por jogada, você assiste, impressionado. Estou convencido de que Dom Casmurro é a melhor dramatização sobre o primeiro amor de toda a literatura. Mas essa não é uma história de amor como as outras.

Meu amigo Joselito, das Filipinas, sobre Dom Casmurro

Meus braços e mãos praticamente tremiam enquanto eu terminava este livro. Especialmente nas últimas 50 páginas.

K.D., de país desconhecido, sobre Dom Casmurro

Eu não queria gostar de Machado, porque um amigo meu gostou dele e deu apenas 1 estrela para 2666 do Bolaño, um dos meus livros favoritos. Eu queria odiar o livro de Machado e achar defeitos nele. Mas eu simplesmente NÃO CONSEGUI.

K.D., de país desconhecido, sobre Dom Casmurro

Ah, Machado. Ele simplesmente nunca falha.

Karen, de Nova York, sobre O Alienista

Nenhum livro me fez senti tanto como se eu fosse um dos personagens. No começo, foi como se eu estivesse sentada com o meu tio, comendo chá com bolinhos e ele estivesse me contando a história, com todo o seu charme.

Sherry, dos Estados Unidos

É um Tristam Shandy curto, rápido e brasileiro, cheio de metáforas incríveis…

Ben Loory, dos EUA, sobre Brás Cubas

Machado de Assis é velho, mas a escrita é moderna…

 

Ninguém escrevia tão bem ou de forma tão vanguardista como o Machado. […] Machado de Assis só não é considerado o primeiro modernista da literatura porque ninguém quer aceitar que um movimento tão importante como o Modernismo nasceu de um mulato no Rio de Janeiro, e não de um branco em uma capital europeia.

Greg, Estados Unidos, sobre Dom Casmurro

O louco do Machado escreveu uma obra de arte modernista lá no seu tempo. James Joyce e Virginia Woolf? Eles não são nada em comparação a Machado… Por que todo o besteirol modernista não está aqui por si próprio, mas sim a serviço de um livro selvagemente original e incrível.

Brian, de Los Angeles, sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas

Como pode um livro escrito em 1899, parecer tão contemporâneo em estilo e conteúdo?

Steve, do México, sobre Dom Casmurro

Mas nem todo mundo gostou…

O cara é bem fluido, inteligente e divertido para um escritor do século XIX, e eu me senti mal de dar 2 estrelas para este livro depois de amar Brás Cubas, mas numa boa… eu não estava nem aí para a história. […] A comédia metafísica e a abordagem pré-modernista de Brás Cubas sumiu e tudo o que sobrou foi […] um romance básico que, escrito por qualquer outra pessoa seria bom, mas vindo do autor de Brás Cubas foi uma decepção…

Ben Loory, dos Estados Unidos, sobre Dom Casmurro

O resultado:

  • Tem um monte de coisas que o teu professor de literatura nunca te falou;
  • Sim, dá um orgulho patriótico, por que o cara é MUITO bem resenhado.

E aí, vamos ler mais Machado?

Minha decepção com “Zorba, o grego”

Quem lê o blog, sabe que eu tenho cara-de-pau para criticar autores respeitados. Há pouco publiquei uma resenha nojentinha sobre Graham Greene, um dos autores mais respeitados do século XX (e ao meu ver, muito superestimado). Só que eu nunca achei que iria meter o pau em um cara que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.

Colhões à vista, vamos lá:

Título: Zorba, o grego Autor: Nikos Kazantzakis
Título: Zorba, o grego
Autor: Nikos Kazantzakis

O protagonista é um homem do mar, um budista zen e sábio que vive enterrado em livros, até foi chamado de “camundongo comer de papiros”, aparentemente a versão meados do século XX da palavra “nerd”. O protagonista não gostou de ser chamado de nerd e resolve empirocar pelo mundo com Zorba, um homem sensual, vívido e ignorante:

“Como a criança, vê todas as coisas pela primeira vez. Espanta-se e interroga sem cessar. Tudo lhe parece milagroso…”

Todos nós já vimos algum filme/novela/série em que um certinho de mal com o mundo aprende lições de vida com um porralouquete qualquer. Mas o livro foi escrito em 1946, então vamos desculpá-lo de qualquer clichê. O meu problema com o livro não é este.

Digamos que um leitor negro vá ler um livro com um personagem que diz coisas racistas o tempo todo. E mais: o tal personagem racista é o portador principal de “lições de vida” da história, uma espécie de mentor indireto pelo qual o protagonista vai refletindo e chegando a conclusões diversas. Ao terminar o livro, se o negro dissesse a outra pessoa que não gostou da leitura porque “o livro é muito racista”, qualquer pessoa entenderia.

Pois bem, o mentor “indireto” de Zorba, o grego é próprio Zorba, que pode não ser racista, mas é um estuprador confesso e, toda vez que pode, faz um comentário que ofende as mulheres.

E acontece que esta criatura que lhes escreve neste blog é uma mulher.

“… que criatura cheia de artimanhas é a mulher! Conseguiu enrolar até o bom Deus!”

“Meu avô” [o tarado do poço, cuja história contarei a seguir] “conhecia bem as mulheres.” [Ele dizia] “desconfia das mulheres. Quando o bom Deus quis criar as mulheres com uma costela de Adão, o diabo se transformou em uma serpente e no momento preciso pulou em cima e surrupiou a costela. O bom Deus se precipita, mas o diabo escorregou, deixando apenas os chifres. […] Quando nos encostamos na mulher, estamos afagando os chifres do demônio! [Misoginia + blasfêmia, tudo ao mesmo tempo. Esse cara é bom.]

“… só aquele que quer ser livre é um ser humano. A mulher não quer ser livre. Então, será que a mulher é um ser humano?”

“Ah, mas isso é porque o livro foi escrito no meio do século XX! O autor só quer mostrar a misoginia que existe no mundo, não quer dizer que ele próprio seja machista!”

Será? Continuemos lendo.

Quando falava de sua experiência de guerra, Zorba contava de como ele e seus colegas russos estupravam mulheres das aldeias que invadiam.

“No começo elas choravam, as malvadas, elas unhavam e unhavam…”

Claro, porque toda mulher que resiste ao estupro é uma malvada.

“…mas, lentamente, iam se deixando tomar, fechavam os olhos, gemiam de satisfação. Mulheres, ora…”

Então, as mulheres que estavam sendo estupradas iam pouco a pouco diminuindo a resistência, e o babaca do Zorba interpretou isso como elas gostando de serem violadas. E pelo “Mulheres, ora…” ele provavelmente concluiu que toda mulher é assim, ou seja, que toda mulher gosta de ser estuprada.

Mas isso ainda não é o suficiente para derrubar nossa teoria de que o livro só mostra misoginia, mas não é misógino em si, certo? Continuemos lendo.

O CASO DO VELHO TARADO

Em um momento da história, Zorba conta a história de seu avô. Essa é uma passagem caracteriza bem o livro como divisor entre “pessoas normais” e “pessoas que são tão sofisticadas a ponto de achar o fodido não-fodido”.

Vou transformar essa passagem em um quiz interativo para você compreender a extrema complexidade psicológica da criatura.

Você é uma moça bonita e está passando por uma rua, quando vê um velho que gosta de se sentar à porta de casa com o único objetivo de secar moçoilas como você. O que você pensa de tal velho?

( ) Tarado

( ) Pervertido

( ) Um tarado que não tem o que fazer da vida

(X) Uma alma linda e complexa que quer absorver para si toda a beleza da vida

Em outro dia, você vai pegar água no poço, e vê o mesmo velho tarado e desocupado, já com defeitos de visão, pedindo para que você se aproxime dele. Contrariando todos os instintos do bom senso, você se aproxima do velho, que do nada acaricia o seu rosto. O que você faz?

( ) Chama-o de velho tarado e manda-o para aquele lugar

( ) Você é uma dama, logo pede licença e sai discretamente do local, mas mentalmente o chama de velho tarado e manda-o para aquele lugar

(X) Pergunta o que está acontecendo, porque se ele está acariciando o seu rosto do nada é porque obviamente ele passa por algum conflito existencial

Respondendo à sua pergunta, você constata que o conflito existencial que aflige o velho tarado é o fato dele estar morrendo e deixando todas as mulheres bonitas para trás, e essas mulheres bonitas vão beijar e transar com outros homens além dele!

Em suma, ele não vai poder traçar todas as mulheres bonitas do mundo. Essa é a grande dor existencial dele.

O que você pensa de tal criatura?

( ) Ele é um tarado

( ) Ele é um tarado egomaníaco

( ) Ele é um tarado egomaníaco que não tem o que fazer

(X) Ele é uma alma linda e complexa que só quer absorver para si toda a beleza que existe no mundo.

Se você não marcou as últimas alternativas, sinto muito lhe dizer: você, assim como eu, é uma pessoa normal com um cérebro indigno de entender obras ultrassofisticadas. Sei que o tema desta passagem é a dor de ser mortal, mas o modo como o escritor escolheu passar isso é demais para o meu pobre coraçãozinho sensível.

Tal misoginia até contamina o protagonista, o nerd budista sábio e muito zen. Eis como ele reage quando nota que, no que tange às mulheres, tem um estilo um pouco mais lento e respeitoso do que seu colega machista-estuprador:

“… [arrombar a casa dela], correr atrás dela, apanhá-la pela cintura e, sem uma palavra, leva-la para o seu leito, eis o que se chama agir como homem!”

Repetindo: Ser homem = Entrar na casa da mulher que gosta e transar com ela sem ligar para o fato de ela estar a fim ou não

E aí, pessoa normal com cérebro deficiente como o meu, será que concordamos?

E a tradução do livro? Tudo ia bem até que, antiga edição do Círculo do Livro, encontrei com um absurdo: Sabe como nos anos 70/80 todos diziam “morou?” para perguntar “entendeu?”. Pois o tradutor colocou a expressão “morou”. Na boca de um grego. No meio do século XX.

 Mas o pior de tudo vem agora, e se você não quiser spoiler, aconselho parar de ler por aqui:

O CASO DA VIÚVA GOSTOSA

Na história, o protagonista se interessa por uma viúva tão linda e gostosa que é a musa da ilha de Creta. Esta viúva despertou a paixão de um rapaz que, decepcionado com o amor não correspondido pela viúva, se suicida afogando-se no oceano. E a vila chega à conclusão que a culpa é da viúva.

Algum problema até aqui? Não, a culpa é dos populares que são tão simplórios a ponto de chegar a uma conclusão tão terrível.

Cria-se então, uma situação parecida com a de Monica Bellucci em Malena: a viúva se esconde da fúria popular, até que vai à igreja em um festejo religioso. Os populares a cercam na porta da igreja e a lincham.

E o que acaba acontecendo? Ela é decapitada. Porque botou um fulaninho na friendzone.

Até aqui tudo normal, né? Injustiças acontecem. Aí o protagonista chega à horrível conclusão de que a decapitação da mulher fora “necessária” e “justa”.

Vai pra puta que pariu.

Apesar de tudo, o livro tem pensamentos interessantes… e um estilo de escrita fantástico.

“Então, para que a liberdade chegue são necessárias tantas mortes e patifarias? Se eu lhe contasse os crimes e enormidades que foram cometidos [em nome da liberdade], você ficaria com o cabelo em pé. E, no entanto, qual foi o resultado de tudo isso? A liberdade! Não entendo mais nada!”

“… Mas isso também não é uma forma de escravatura? Sacrificar-se por uma ideia, pela raça, por Deus? Ou será que, quanto mais alto o patrão, mais longa se torna a corda da escravatura? O escravo pode então agitar-se em uma arena mais espaçosa, e morrerá sem nunca ter encontrado a corda. Será isso que então chamamos de liberdade?”

“Não vá dizer [aos homens] que são todos iguais e todos têm os mesmos direitos. Na mesma hora eles pisarão no seu direito, roubarão o seu pão e o deixarão morrer de fome.”

“…é um pecado mortal violar as leis da natureza. Não devemos apressar-nos, nem impacientar-nos, mas seguir com confiança o ritmo certo.”

“… a vida se esbanja em pequenas alegrias, em pequenas tristezas e em fúteis propósitos.”

Enfim, o Kazantizakis mereceu o Nobel. Pesquisando sobre ele, vi que ele sofreu muita opressão política e cresceu em um ambiente terrível, cercado de guerra. Isso se traduz no pessimismo das frases acima.

Mas vai ser machista assim lá na puta que o pariu.

DOWNLOAD: Vale das bonecas, de Jacqueline Susann em PDF, Epub ou MObi

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Créditos: LêLivros (eu apenas converti)

Lembra-se do machismo dos anos 50?

Imagine que você é um garota chata boazinha que acabou de se mudar para Nova York e tem tudo o que uma jovem que acabou de se mudar para NY quer: um emprego que paga pouco, mas é glamoroso, e um apartamento horroroso que você divide com sua BFF de veia artística. (Há toda uma beleza boêmia em se ter apartamentos horrorosos em Manhattan.)

Você também sai com esse carinha chamado Allen, porque, no alto de sua chatice você também gosta de sair para jantar com as pessoas para poder dizer a elas o que elas deviam fazer da vida, e o vendedor de seguros pobrinho se encaixa no perfil “amigo da friendzone”.

Aí, Allen, o suposto “cara legal” joga a bomba, em uma série de diálogos que bem que poderia ser resumidos assim:

– Eu sou rico. Ah, e agora a gente é noivo!

– Mas Allen eu não quero casar com você!

– Bobagem, eu sou rico!

– Mas eu não te amo!

– Ah, mas você vai mudar de ideia! Eu não disse que eu sou rico?

– Mas eu nem tenho vontade de te beijar!

– Ah, deve ser porque você não gosta de sexo! Eu já te disse que eu sou rico?

Então você, como boazinha chata que você é, aceita esse noivado forçado até ter coragem de dizer para o babaca cara legal que ele é um babaca perdeu a cabeça. No dia seguinte, o seu noivado sai na primeira página do jornal e o teu chefe inventa essa história:

“Ei, você vai ter que continuar com esse noivado de mentirinha, senão você vai acabar se apaixonar pelo bonitão mulherengo aqui do escritório, e eu não quero que isso aconteça, porque eu sou um cara tão legal que adoro ficar me metendo na vida pessoal dos meus empregados.”

Sim, o enredo é ridículo assim mesmo.

E sim, ela acaba se apaixonando pelo bonitão mulherengo do escritório. SPOILER: Depois do primeiro beijo, ela chora dizendo: “Obrigada por me fazer acreditar no amor!”

Mas não é exatamente esse tipo de livro. Apesar de ser previsível às vezes, este não é um típico chick lit. Não existe final feliz. A mensagem é mostrar o quão glamorosa e miserável é a vida dos ricos e famosos, focado nas mulheres… ou em como ser uma mulher era (ou ainda é?) é péssimo.

“Esse é um mundo de homens e as mulheres só reinam nele enquanto são jovens e bonitas.”

Por que uma mulher trabalharia duro na carreira que ama? Para poder acabar seca e sozinha? Para poderem comprar coisas que elas ter há dez anos atrás se tivessem se casado com um homem rico?

E olha que algumas mulheres ainda querem viver em uma sociedade machista, onde suas únicas qualidades relevantes são juventude, beleza, capacidade de agradar os outros e olhar para o outro lado quando o seu marido invariavelmente se cansar de você…

NÃO É ESSA COCA-COLA TODA: O FATOR HUMANO, de Graham Greene

Como a novela mexicana me ajudou a identificar a breguice de Graham Greene.

Leia esta resenha em inglês no meu Goodreads.

O fator humano, de Graham Greene.
O fator humano, de Graham Greene.

Eu sempre ouvi falar que Graham Greene era um romancista respeitado, do tipo que faz James Bond parecer historinha para crianças dormirem. Aí eu li um livro dele. E o resultado foi uma decepção enorme, porque…

ESTE ESCRITOR É BREGA. PRA CACETE.

O Graham Greene brasileiro.

Eu comecei a desconfiar quando li isso aqui:

Uma esposa questiona a seu marido se ele não quer ter um filho, já que Sam, a criança que eles criam, é filho somente dela. E o que ele responde?

“Eu amo Sam porque ele não é meu. Porque eu não tenho que ver nada meu quando olho para ele. Eu só vejo alguma coisa de você. Eu não quero continuar para sempre. Pelo contrário, eu quero que tudo o que eu sou termine comigo.”

Como alguém que cumpriu sua carga horária de novela mexicana na SBT e Netflix (portanto, tenho um senso sobrenatural para identificar coisas bregas), eu desconfiei logo. Então, basicamente, aqui a gente sabe que o protagonista tem algum conflito existencial, o que faz parte do “fator humano” do setor de espionagem. [Nada que John le Carré faça melhor.] Minhas desconfianças foram levantadas, e aí eu continuei lendo…

“… ele não queria viver na cidade de Deus ou Marx, mas em uma cidade chamada Paz de Espírito.”

Bingo. Meu instinto de quem viu A Usurpadora no Netflix não me engana!

Paola Bracho aprovou este post.

Quase não há descrição física dos personagens. A não ser, é claro, que os personagens sejam negros.

Não que eu ache Greene racista, pelo contrário. Ele retrata muito bem o “racismo leve” nesta obra. Mas ele ainda é um produto de seu tempo. Ou seja, as descrições físicas dos personagens negros envolvem a cor negra… e não muito mais. A pele é negra, o cabelo é crespo… Só isso. É só isso que Greene usa para descrever fisicamente os personagens negros deles.

A coisa piora com os personagens brancos. A maioria dos outros personagens são um bando de velhos brancos, uns iguais aos outros. Desculpem-me, mas como alguém que nasceu em um país miscigenado, fica chato escolher aleatoriamente pessoas de filmes anglo-saxões para representar os personagens do livro na minha cabeça, simplesmente porque o autor não fez sua obrigação de descrever os personagens além do fato de dizer sua idade e cor.

A ambientação é genérica. Oh, o protagonista está numa livraria. Como é a livraria? Eu não sei.

Oh, eles estão numa capela vendo um casamento. Como é a capela? Quais são as cores das flores que decoram o casamento. Eu também não sei! O autor não nos conta.

Mas não se preocupe. Sabe aqueles filmes anglo-saxões que você usou para escolher os personagens porque o autor não se deu ao trabalho de descrevê-los? Você pode usá-los para escolher os detalhes da ambientação também!

E isso:

“No auge do amor, Sarah gritava o seu nome tribal secreto.”

Maaas… nem tudo é horrível. Algumas coisas são imprevisíveis.

A sabedoria política. Sabe quando você está tendo uma discussão qualquer e aí você faz um argumento todo regrado a Foucault, Chomsky, Bertrand Russell e o caralho a quatro; e aí alguém te responde de um jeito completamente simples, mas com uma sabedoria tamanha que dá um tiro na cabeça do seu argumento pretensiosudo? (Sim, eu inventei essa palavra.) Este livro tem vários momentos assim.

Ele mostra que nem todo racista se vê como racista. Pelo romance, vemos vários personagens que se dizem tolerantes fazerem vários comentários desastrados sobre racismo. Greene faz um ótimo trabalho em expor a “hipocrisia racial” deles. Hipocrisia esta aliás, que pode ser detectada em muitos comentários no seu feed do Facebook.

Este era para ser um dos livros menos sérios e mais “divertidos” deste autor. Eu não me diverti nem um pouco lendo este livro. Não creio que darei uma nova chance a este autor, mesmo com o Obama dizendo que “O Americano Quieto” é um dos seus livros favoritos. Eu nem sequer lerei um de seus romances mais “sérios”. Eu não duvido que ele consiga escrever livros inteligentes. Eu não tive nenhum problema com as ideias dele. Eu tive um problema mesmo foi com o estilo dele.

P.S.: Apesar deste autor não fazer o básico descrevendo os personagens ou ambientação e tem um estilo que deixaria Paulo Coelho roxo de vergonha, ele é MUITO louvado. Vejam o que dizem sobre ele:

“Nenhum outro escritor do século XX penetrou de forma mais profunda e moldou o imaginário coletivo como Graham Greene.” – Time

Hummm. E Kundera, Hemingway, Fitzgerald, Nabokov…? Ele sequer é o melhor do nicho de espionagem. John le Carré sabe escrever livros de espionagem “maduros” muito mais convincentes.

“Um soberbo contador de histórias.” – New York Times

Um soberbo contador de histórias que sequer faz o dever de casa ao descrever ambientes e personagens e que usa alegorias de doer no coração até de quem vê novela mexicana no Netflix.

Moral da história: Não acredite em toda babação de ovo que lê por aí.

Dicas de como escrever personagens interessantes

Dicas de como compor personagens bacanas.

Estas dicas foram tiradas do ebook grátis oferecido pela escritora K. M. Weiland. Se você lê em inglês, vá lá e registre-se para ler o livro inteiro.

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Escreva um prompt: uma linha resumindo o personagem, descrevendo o enredo. Quem é o personagem? Por que ele é interessante aos leitores?

Fazer uma entrevista padrão com os personagens.

Eneagrama: teste de personalidade que alinha personagem em 9 categorias. Identifique sua “falha fatal”.

OS ANTAGONISTAS MAIS INTERESSANTES TÊM UMA BOA MOTIVAÇÃO. Exemplo: Comodus, do filme Gladiador, só queria ser amado e aprovado pelo pai.

Sugestões de perguntas a fazer sobre os personagens:

Pais: O que era importante para as pessoas que o criaram? Classe social.

Matéria preferida na escola?

Salário

Amigos: Como as pessoas o veem, mora com quem? Briga com quem? Passa tempo com quem? Quer fazer companhia a… Quem depende dele? O que ele admira nos outros?

Espiritualidade

Visão geral da vida: O personagem gosta de si mesmo?

O que mudaria em sua vida?

Quais são seus demônios pessoais?

Ele mente a si mesmo?

É otimista/pessimista?

Sua moralidade? Sua autoconfiança?

Como ele é percebido pelos outros?

Descreva um dia típico dele.

Sua aparência física: postura, formato do rosto, pele, voz, sua característica mais notável, roupas

Que impressão sua aparência passa para os que o rodeiam?

Autocontrole/disciplina: Ele é enraivecido por…

Entristecido por…

Seus medos?

Seus talentos?

Cor favorita

Possessões:

O que ele tem de ordinário?

O que ele tem de extraordinário?

Ambição maior na vida…

Pelo POV (ponto de vista) de outro personagem, introduza-o.

  • 1ª impressão
  • Roupas, jeito, fala;
  • Conclusões corretas.

Nas primeiras 50 páginas:

  • Identifique os personagens
  • Ganchos
  • Tom geral
  • Ambientação

Solução: FOCA NO PERSONAGEM

Mostre o personagem em um momento clássico

Dê exemplos de ATITUDE DO PERSONAGEM.

Pesquise os preconceitos que o nome do personagem carrega

Evite dar nomes a diferentes personagens com a mesma inicial

Nomes devem estar corretos historica e geograficamente

Não tenha medo de renomear os personagens, se necessário

DESCRIÇÃO DOS PERSONAGENS:

Problemas a evitar:

  1. Clichês que nada acrescentam
  2. Uso inapropriado: Não precisa ser longa, às vezes um detalhe diz mais do que parágrafos
  3. Colocação/Posição errada: A descrição deve vir cedo no romance. Você não pode dizer que fulano é loiro só na metade da história. Até lá, o leitor já deve ter formado a imagem dele, e não vai gostar de mudar a imagem que imaginou porque você não descreveu no momento certo.
  4. Ênfase inapropriada: se o personagem é importante, descreva-o bastante, se não for importante, dê uma descrição breve

Banda indie obscura: Milano Sun, e algumas observações sobre escandinavos

Hora de curtir Milano Sun, uma banda indie obscura que ninguém conhece, e que vai te deixar com fama de esquisito pretensioso.

Preconceitos à parte, o som deles é interessante para quem gosta de synth pop.

Milano sun – Scandinavia

E como a banda é sueca e o nome da música é Scandinavia, eis alguns factoides sobre os escandinavos (mais especificamente, os suecos), colhidos após uma extensa pesquisa (que constituiu em conversar com meus amigos suecos, ver o vilme “Deixa Ela Entrar”, dez minutos de Google… e este clipe).

1 – Para os padrões latinos, escandinavos são “esquisitos”. Eles só falam alguma coisa quando tem algo a acrescentar. É comum ver famílias inteiras em grandes reuniões… e não ter ninguém se falando.

2 – A Suécia tem uma culinária que envolve muitos vegetais e pouca carne. O resultado? São um dos povos mais magros da Europa.

3 – Eles sofrem com a falta de sol. (Vide clipe, minha gente)

4 – Eles são socialistas. O governo impõe regras para tudo. Os pais não podem dar palmadas em seus filhos, os paparazzis não podem tirar fotos sem consentimento dos famosos (lá, é assédio)…

5 – Sabe a rivalidade paulistas/cariocas? Rola uma coisa parecida entre suecos e noruegueses. Os suecos são sérios/workaholics e os noruegueses os beberróes/falastrões.